Black Mirror: virtualidade e responsabilidade

AVISO: o texto abaixo contém SPOILERS.

O último episódio da segunda temporada da série Black Mirror, denominado Waldo Time, retrata a popularidade de um personagem criado por computação gráfica, o urso Waldo. Ele faz parte de um programa de televisão e entrevista convidados. Com sua maneira debochada e linguagem informal, deixa constrangido e sem respostas um de seus convidados, um político. O fato chama tanto a atenção que decidem lançar Waldo como candidato. A possibilidade de lançar um urso virtual às eleições é uma questão que merece atenção por si só e não está muito distante de nossa realidade política, que, por exemplo, já contou com animais em seus quadros de concorrentes. Mas o que nos interessa discutir é a relação de virtualidade e responsabilidade.

O indivíduo responsável por dar vida ao Waldo possui uma personalidade aparentemente bastante distinta da demonstrada por ser seu personagem; parece tímido e inseguro em alguns momentos e procura evitar o confronto. Por outro lado, em um debate com outros candidatos, o urso Waldo, ou, melhor, a imagem do urso em uma tela colocada no palco, insulta os oponentes sem receios. Neste caso, o personagem possibilitou ao criador manifestar comportamentos que aparentemente não condizem com sua identidade e que não teria coragem de expressar despido da identidade de urso.

O mesmo acontece frequentemente nas redes sociais virtuais: indivíduos agem na rede de maneiras inconsistentes com a forma de ser presencial. Isso acontece, entre outros motivos, porque a comunicação intermediada, seja por um computador ou por um smartphone, por exemplo, afasta as partes – o que favorece a despersonalização do outro – e oferece um terreno “seguro”. Algumas consequências potenciais nessa forma de se comunicar também acabam sendo vistas como distantes. Se eu xingo alguém que está à minha frente, posso esperar ser agredido em retorno, mas se o faço com alguém “virtual” e pouco perceptível aos meus sentidos, o temor diminui.

Com a relação de causa e efeito nos ambientes virtuais bastante diferente da experimentada em situações presenciais, a balança entre ação e as noções de responsabilidade também se altera para estas interações. Basta ver o exemplo dos haters e da proliferação assustadora de ofensas e desqualificações nas redes. O anonimato dos usuários e a pouca eficiência da polícia em investigações virtuais, dado o volume de ocorrências, afastam muito a perspectiva de punição para atos desta natureza, o que facilita a ação dos mal intencionados.

Mais importante, porém, do que pensar sobre a impunidade nos assuntos virtuais, é compreender o que gera expressões dessa natureza, muitas vezes impulsivas e de caráter irresponsável. Afinal, não é somente em relação às ações de ódio que as noções de responsabilidade são afetadas pela virtualidade. São muitas pessoas que, por exemplo, postam incessantemente conteúdos nas redes sociais virtuais prejudiciais a si mesmas, como os vídeos de sexo explícito ou as fotos de nudismo compartilhados nesses ambientes. Em muitos relatos, algumas delas apenas se arrependem da exposição após sofrerem pressão da sociedade, seja presencial ou virtual, quase como se somente aí pudessem se dar conta do que estava em jogo.

Não estamos discutindo se as respostas do meio a determinadas ações individuais como as mencionadas acima estão certas ou erradas, apenas estamos analisando como a virtualidade afeta a capacidade de antever e ou relacionar com os próprios atos as óbvias consequências da exposição pública de conteúdos privados que sensibilizam nossa sociedade, ainda bastante conservadora.

O que parece uma grande contradição – manifestar para milhões de pessoas por meios virtuais aquilo que não se consegue expor nos círculos mais próximos – encontra, assim, um impulso originador na coerção que os meios exercem sobre a individualidade. Se alguém precisa escrever mensagens de ódio é porque carrega em si mesmo frustrações, memórias de violência sofrida, repressões constantes causadas por terceiros nessa cultura de violência que se impõe. Se alguém precisa desesperadamente ser notado é porque não se sente valorizado, não se vê estimulado a ter aceitos seus próprios caminhos e escolhas num momento individualista e de fragilização dos laços sociais.

É no infinito mar de conectados, anônimos e distantes, que o indivíduo busca encontrar aquilo que não está disponível ao alcance da mão, do abraço, custe o que custar. Apesar de tentador, culpar a ferramenta pelos excessos não resolve a questão. O intermediador não causa a necessidade, apenas permite a livre manifestação. Por dar voz a quem nunca a teve, é, para muitos, a forma encontrada de liberar o grito entalado na garganta.

Escrito pela Psicóloga Fernanda Guimarães e pelo Especialista em Sociologia Roberto Guimarães.

 

 

A Missão do Grupo Projetar é desenvolver a força pessoal e promover a conscientização do indivíduo com relação ao seu papel na sociedade, através da propagação das Artes Marciais e seus conceitos – filosóficos, psicológicos e sociológicos – e do resgate de seus valores morais, tornando-os cada vez mais acessíveis como ferramentas para a evolução pessoal e social.

Os cursos, palestras e atividades regulares do Grupo Projetar foram elaborados por uma equipe de MESTRES de Artes Marciais e Especialistas em TREINAMENTO DESPORTIVO, PSICOLOGIA, SOCIOLOGIA e HISTÓRIA. O intuito é desenvolver as potencialidades do indivíduo em termos de:

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Roberto Guimarães
Diretor
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