Star Wars e o problema da predestinação

Um dos temas centrais de Star Wars é a Força. Desde os primeiros episódios lançados, a Força diferenciava as pessoas comuns dos cavaleiros Jedi. Quem não se maravilhou com os poderes extraordinários que tais cavaleiros eram capazes de demonstrar? Mover objetos com o pensamento, dominar mentes, combater às cegas eram algumas das façanhas que faziam os espectadores sonharem em se tornar cavaleiros Jedi.

 

 

Nos episódios IV, V e VI, a Força tinha um caráter místico, sua natureza não estava determinada. Parecia-nos ligada à dedicação do guerreiro no desenvolvimento de suas habilidades, ou seja, dependia, aparentemente, do esforço realizado pelo indivíduo em seu aprimoramento pessoal. Isso possibilitava ao espectador acreditar que qualquer pessoa podia se tornar um cavaleiro Jedi e valorizava o esforço como meio para chegar lá. Portanto, a mensagem que tais filmes deixavam para nós era a de que mesmo o mais comum dos seres poderia ser protagonista de grandes feitos desde que se empenhasse. Quando nos entendemos capazes de transformar o mundo, agentes da realidade, temos motivação para buscar os meios de fazê-lo.

 

 

Foi então que apareceu o conceito de Midi-chlorian, introduzido pela primeira vez no episódio I. A então mística Força se tornava científica; traduzia-se em manifestações geradas por micro organismos que viviam nos indivíduos. Isso quer dizer que o indivíduo possuidor de muitos Midi-chlorians era mais afetado pela Força. Porém, a quantidade de Midi-chlorians no indivíduo era predeterminada desde seu nascimento. Não cabia a ele mudar; em verdade, ele nada podia fazer para mudar. Era questão de sorte, ou genética. Defender a honra, combater a injustiça, melhorar o mundo já não era mais tarefa para todos aqueles que perseveravam em seus treinamentos; restringia-se aos que aleatoriamente tinham sido agraciados com uns bichinhos poderosos no sangue.

Esses são os problemas do conceito de predestinação, a ideia de que algo ocorre ao indivíduo por destino, de maneira pré-estabelecida. Primeiro, não há a necessidade de melhorar ou de aprimorar a si mesmo em busca da “graça”, ela vem até o escolhido faça o que fizer. Desta forma, não há a necessidade de se preocupar com a conduta: boa ou má, ela não interfere no recebimento da dádiva. Segundo, cabe somente ao escolhido cumprir o destino, aos demais resta observar. Isso parece corresponder bastante ao nosso momento atual. Por exemplo, quando algo acontece, vemos inúmeras pessoas filmando com seus celulares o ocorrido, porém são raras as que interferem, mesmo sendo capazes de fazê-lo.

 

 

Mas, porque cometeram essa atrocidade com um conceito tão rico e inspirador como o da Força? É compreensível que uma sociedade tecnológica como a nossa, que entende a razão como suprema e nega tudo aquilo que não é científico, tenda a buscar explicações palpáveis, quantificáveis e qualificáveis para os fenômenos. Deixar o concreto de lado para viver uma experiência emocional não racionalizável é uma tarefa árdua para a maioria. E a maioria venceu, temos os Midi-chlorians, o remédio para as incertezas do místico, para a angústia da indefinição.

 

 

Porém, a mesma maioria também perde toda vez que algo assim acontece. É o que tem sido denominado como “desencantamento do mundo”. Os processos imaginativos têm se contido na segura fronteira do calculável. O sonho não tem mais espaço se não for material, como anunciava Ítalo Calvino na invisível cidade de XXXXXXXXX. Desta forma, nossas experiências emocionais perdem em riqueza, pois a imaginação é um dos recursos que possibilita o reconhecimento e a elaboração dos sentimentos.  Quando tentamos enquadrar nosso profundo universo psíquico em formulações, deixamos de experimentar e reconhecer suas características mais específicas, mais individuais. Afastamo-nos de nós mesmos. Reduzimos também nossas possibilidades de empatia, pois esta requer a identificação no outro de algo que reconhecemos em nós. Quanto mais restritos emocionalmente nos tornamos, mais limitadas serão as possibilidades dessa identificação acontecer. A socialização fica comprometida. São muitos os jovens que possuem enormes dificuldades de comunicação: não sabem o que dizer nem como se comportar diante do outro.

 

Isso tudo é culpa dos Midi-chlorians? Claro que não. Mas certamente as possibilidades de sonhar em se tornar um cavaleiro Jedi ajudariam bastante a diminuir os impactos das dinâmicas sociais a que estamos submetidos. Na transitoriedade, na corrupção desenfreada e na falta de heróis que esse mundo pós-moderno gera, os Jedis poderiam servir de referência para a condução da vida pelos nobres valores que explicitam; poderiam tirar muitos jovens de suas vidas mecanizadas, pautadas em rótulos e posses. Infelizmente, porém, esse combate foi vencido pelo o lado negro da Força.

Que a Força esteja com quem tiver sorte!

 

Escrito pela Psicóloga Fernanda Guimarães e pelo Especialista em Sociologia Roberto Guimarães.

A Missão do Grupo Projetar é desenvolver a força pessoal e promover a conscientização do indivíduo com relação ao seu papel na sociedade, através da propagação das Artes Marciais e seus conceitos – filosóficos, psicológicos e sociológicos – e do resgate de seus valores morais, tornando-os cada vez mais acessíveis como ferramentas para a evolução pessoal e social.
Os cursos, palestras e atividades regulares do Grupo Projetar foram elaborados por uma equipe de MESTRES de Artes Marciais e Especialistas em TREINAMENTO DESPORTIVO, PSICOLOGIA, SOCIOLOGIA e HISTÓRIA. O intuito é desenvolver as potencialidades do indivíduo em termos de:
  • AUTOEXPRESSÃO (artística): pelo movimento e pelas vivências emocionais no conflito, através das artes marciais;
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Roberto Guimarães
Diretor
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