Mindhunter: a resistência à depreciação da ideia de ser humano.

 

A série Mindhunter narra a história de um agente do FBI que, após um fracasso em uma situação com reféns na qual atuava como negociador e que culminou no suicídio do agressor, começa a questionar a eficácia dos procedimentos adotados pela Agência. Inicia, então, uma busca por novas formas de investigar que incluam a análise das motivações para o crime a partir do perfil psicológico do criminoso e permitam solucionar os complexos casos de assassinos seriais que assolavam os Estados Unidos.

Para quem está acostumado com “Seven – Os Sete Pecados Capitais” e “Copycat – A Vida Imita a Morte”, entre outros, a ideia de investigadores capazes de antecipar as ações dos mais violentos serial killers pode parecer comum, mas nem sempre foi assim. Exageros à parte, o desenvolvimento de métodos capazes de auxiliar no estabelecimento de perfis dos criminosos a partir dos dados forenses foi uma árdua tarefa para os pioneiros retratados na série.

 

MINDHUNTER

 

Isto por vários motivos, entre eles a resistência da população à psicologia. Se atualmente ainda há dificuldades de aceitação por boa parte das pessoas, apesar de todas as comprovações apresentadas pelas inúmeras pesquisas e desenvolvimentos, podemos imaginar como era na época em que se passa a série, na qual esta ciência ainda estava ganhando terreno e firmando seus conceitos e métodos. Mas o que pode justificar tamanha contrariedade?

Existem questões que atormentam a humanidade e para as quais esta vem tentando elaborar as mais variadas explicações. Para a ideia de morte, por exemplo, acredita-se na vida eterna ou na ressurreição; para os atos mais vis, defende-se a constituição moral inata, ou seja, o entendimento de que se nasce mau ou bom, entre outros. Quanto mais determinado assunto afeta a sensibilidade, mais se tende a aceitar quaisquer explicações que afastam do sofrimento, mesmo que apenas ilusoriamente.

 

 

O crime violento é um destes temas. Basta verificar a reação que a população em geral tem diante de um homicídio doloso se comparada com aquela causada por crimes de corrupção. O desvio de dinheiro público na área da saúde, por exemplo, mata indiretamente muito mais do que um indivíduo é capaz por vias violentas. Mesmo assim, a sede de vingança é frequentemente mais forte em relação ao assassino. Quando, então, uma menina de classe média alta mata os pais com pancadas de bastão na cabeça enquanto dormiam, por exemplo, ela é imediatamente demonizada e poucos esforços são feitos para compreender suas motivações.

Não queremos negar a violência dos atos ou justifica-los, apenas mostrar que, ao aceitarmos explicações simplistas e idealizadas, forma-se no “consciente coletivo” uma noção de ser humano que não corresponde às pesquisas científicas mais recentes. É por ferir essa imagem de homem, construída para aplacar os mais intensos sofrimentos, que se tende a rejeitar o conhecimento que revela a realidade.

 

 

Ainda é forte a ideia de que “não conhecer” garante “não se tornar”, de que “se afastar” impede de “fazer”. Essa supressão daquilo que julgamos inapropriado ou incompreensível, ou até mesmo daquilo que expõe nossas maiores fragilidades, gera um enorme problema: não se aprende a lidar com tais realidades. Para investigadores do FBI, apenas julgar e classificar como bom ou mau não era suficiente para esclarecer os casos mais surreais para a moral vigente. Era preciso compreender o impulso violento, acessar a mente de quem cometeu os atos para os quais a razão comum não conseguia encontrar justificativas plausíveis. O protagonista realiza, para esse fim, uma série de entrevistas com assassinos hediondos, baseados nos mais chocantes casos reais.

As entrevistas mostraram claramente ao protagonista realidades com as quais a maior parte de nós teme se confrontar: de que até mesmo os atos mais vis possuem causas; de que estas causas estão direta ou indiretamente relacionadas ao meio social; de que a influência das figuras mais sacralizadas, como a mãe ou o pai, é muito grande na formação moral; de que a legitimada autoridade parental possibilita um sadismo por parte dos pais que pode ser considerado um dos grandes fatores para a perda de empatia e predisposição à violência com o outro; que qualquer pessoa pode responder violentamente se submetida às condições psíquicas mais insalubres; de que a depreciação e a exclusão resultam na desvalorização da sociedade pelo indivíduo rejeitado; enfim, aproxima de nós a crueldade e torna a todos colaboradores.

Buscar culpados que nos isentem da responsabilidade e possibilitem manter o véu sobre estas dinâmicas pode parecer seguro, mas deixa sempre aberta a possibilidade de ser surpreendido. Não se pode proteger ou modificar aquilo que não se quer enxergar.

Escrito pela Psicóloga Fernanda Guimarães e pelo Especialista em Sociologia Roberto Guimarães.

A Missão do Grupo Projetar é desenvolver a força pessoal e promover a conscientização do indivíduo com relação ao seu papel na sociedade, através da propagação das Artes Marciais e seus conceitos – filosóficos, psicológicos e sociológicos – e do resgate de seus valores morais, tornando-os cada vez mais acessíveis como ferramentas para a evolução pessoal e social.
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Roberto Guimarães
Diretor
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