Black Mirror: o sadismo do espectador

AVISO: o texto abaixo contém SPOILERS

No primeiro episódio da primeira temporada da série Black Mirror, uma carta anônima endereçada ao Primeiro Ministro exige que ele tenha relações sexuais com um porco, cena que deveria ser transmitida ao vivo para toda a população por emissoras de TV. Sua recusa supostamente colocaria em risco a vida da “princesinha”, pertencente à nobreza e celebrada pelo povo, recentemente sequestrada pelo remetente da carta.

O episódio é recheado de conceitos. Pode-se perceber a questão do deslocamento de poder pelo fortalecimento da opinião pública como consequência das novas tecnologias de comunicação e sua abrangência, o que impõe pressão às autoridades. Há também a dificuldade em distinguir o público do privado; as figuras públicas têm sua vida particular invadida e espetacularizada, transformando o indivíduo em seu cargo, submetendo a identidade quase exclusivamente à função. Também é possível levantar a discussão ética em relação à função do jornalismo e a responsabilidade sobre a divulgação da informação, afinal, qualquer fato pode e deve ser relatado pelo jornalismo, independentemente das consequências potenciais, e mesmo em um ambiente em que todos podem comunicar fatos?  Qualquer restrição à informação é censura, limitação da liberdade de expressão, principalmente quando a autoridade não consegue controlar senão as instituições jornalísticas?

O que queremos abordar aqui, porém, é um fato que talvez tenha sido percebido de maneira secundária diante de tantos e tão impactantes temas. Durante toda a espera, pelo bizarro espetáculo do coito com o porco, figura frequentemente remetida ao político, a população se encontra ávida por satisfazer sua mórbida curiosidade. A cidade para e assiste integralmente a exibição. É bastante intrigante a popularidade das notícias de pessoas em situações de sofrimento ou vexatórias. O que pode explicar tamanha atração pelos reveses da vida alheia, principalmente quando tratam de celebridades ou políticos?

Nossas relações sociais são predominantemente estabelecidas pela dominação: pais determinam, chefes mandam, clientes sempre têm razão; “você sabe com quem está falando” é um frase que expressa bem a diferença de poder nas interações. Toda dominação pressupõe um dominador e um dominado. Poucos alcançarão os topos dessa cadeia, mas é certo que a todos caberá, em algum momento, a submissão.

O dominado é um indivíduo impedido de ser quem deseja; é determinado pelo dominador. Constantemente se vê frustrado pela impossibilidade de realizar suas aspirações quando esbarram nos limites impostos pelo seu algoz. Diante de muitas restrições, o dominado deixa até de sonhar, afinal, o sonho é alimentado pela esperança e, numa sociedade que aceita e reforça o direito velado de se impor sobre o outro, não há força de vontade capaz de sustentar a ilusão de um amanhã diferente. O que resta é, em muitos casos, a tentativa de aproximação do topo, talvez a subida de alguns degraus para diminuir o número de dominadores que pesam sobre a individualidade e aumentar, com isso, a quantidade de marionetes que se pode manipular.

Independentemente do lugar que se ocupa na cadeia, as frustrações constantes dos impulsos resultam facilmente em agressividade. O primeiro ímpeto é, comumente, retornar contra a autoridade a violência sofrida, porém, poucos dispõem de recursos para fazê-lo; quem se submete normalmente o faz porque não tem outra opção, é dependente da autoridade ou inferior em poder. Também, quanto mais restritiva for a dominação, menos encorajado a agir o indivíduo se perceberá, mais assumirá a realidade imposta pelos dominantes como a única maneira de ser, ou seja, com facilidade entenderá que não lhe cabe transformar, que não é capaz de promover melhorias.

Quando o indivíduo se assume como espectador, quando não pode se realizar, quando não é capaz de agir para vingar a violência ou elaborar a agressividade de maneira construtiva, restam a ele poucas saídas para lidar com os sofrimentos. Uma das mais comuns é o sadismo. O sofrimento do outro passa ser apreciado por exercer três funções primordiais para o inativo. Em primeiro lugar, desvia a atenção da própria realidade sofrível e cria momentos nos quais os próprios reveses não ocupam lugar na consciência; é uma fuga da realidade.

Segundo: ameniza a indignação causada pelo sentimento de injustiça que as violências impostas geram. Um dos maiores criadores de sentimento de injustiça é a desigualdade de possibilidades numa sociedade que idealiza a igualdade de direitos. Ver-se obrigado a reconhecer constantemente a sorte de terceiros diante do próprio infortúnio é um desafio às capacidades de resignação. Quando, porém, o outro se nivela e compartilha da mesma “lama”, os efeitos da própria impotência se tornam mais suportáveis; a dor do outro diminui a sensação de ter sido abandonado pelo “destino”.

Terceiro: se a vítima é alguém de cima, do topo da cadeia de comando, seu sofrimento pode amenizar os anseios por vingança que dominado, por sua incapacidade, não pôde concretizar.

Assim, nossa sociedade de espectadores, sádica por consequência, compete não somente pela obtenção de qualquer migalha que represente um ganho – um carro mais caro do que o do vizinho, um celular mais moderno do que os da turma – mas pela possiblidade de presenciar a desgraça de terceiros que tanto causa prazer. Quanto mais próxima melhor; se puder ser gravada e compartilhada nas redes sociais, não tem preço. Triste reflexo de nossa escravidão.

Escrito pela Psicóloga Fernanda Guimarães e pelo Especialista em Sociologia Roberto Guimarães.

A Missão do Grupo Projetar é desenvolver a força pessoal e promover a conscientização do indivíduo com relação ao seu papel na sociedade, através da propagação das Artes Marciais e seus conceitos – filosóficos, psicológicos e sociológicos – e do resgate de seus valores morais, tornando-os cada vez mais acessíveis como ferramentas para a evolução pessoal e social.

Os cursos, palestras e atividades regulares do Grupo Projetar foram elaborados por uma equipe de MESTRES de Artes Marciais e Especialistas em TREINAMENTO DESPORTIVO, PSICOLOGIA, SOCIOLOGIA e HISTÓRIA. O intuito é desenvolver as potencialidades do indivíduo em termos de:

  • AUTOEXPRESSÃO (artística): pelo movimento e pelas vivências emocionais no conflito, através das artes marciais;
  • BEM-ESTAR: pela melhoria do condicionamento físico e pela compreensão dos principais males cotidianos e contradições sistêmicas;
  • CONHECIMENTO SIGNIFICATIVO: pela interdisciplinaridade de seus conteúdos e por sua associação às experiências de vida; e
  • SEGURANÇA: pela conscientização da violência e de seus fatores geradores e pela identificação dos riscos e adoção de medidas preventivas.

Roberto Guimarães
Diretor
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