Planet of the Apes – O Planeta dos Macacos: a ciência como inimiga da fé

Escrito pela Psicóloga Fernanda Guimarães e pelo Especialista em Sociologia Roberto Guimarães.

AVISO: o texto abaixo contém SPOILERS

O filme O Planeta dos Macacos conta a história de uma tripulação de astronautas que deixou a Terra para tentar a vida em outro planeta. Deslocava-se à velocidade da luz, o que, segundo uma teoria mencionada no filme, causaria uma passagem de tempo no espaço muito mais lenta do que a decorrida na Terra. Enquanto os astronautas viajavam por apenas alguns meses, mais de dois mil anos teriam se passado em seu planeta natal.

Sua nave chega a um destino desconhecido e eles se preparam para explorar o local. Deparam-se com seres parecidos com humanos, porém em estado bastante primitivo de desenvolvimento. Os habitantes locais não se comunicam verbalmente e vivem como coletores. Repentinamente todo o grupo é capturado por macacos, não espécimes comuns, mas desenvolvidos ao ponto de constituírem a fala e desenvolverem civilizações organizadas.

De maneira angustiante, vemos os seres humanos superados na cadeia evolutiva. De dominantes passam a dominados. São aprisionados e tratados indignamente, utilizados como cobaias em experimentos nocivos. Faz-nos refletir sobre a forma como tratamos outros animais, sobre como nos atribuímos direitos sobre as espécies “inferiores” apenas por termos o poder de impor nossas vontades. Matamos por esporte, fazemos sofrer, exterminamos. Aqui o conceito de justiça não tem espaço para prevalecer, tampouco a noção de responsabilidade.

Mas não é sobre isso que escolhemos escrever. No filme, o astronauta capturado Taylor, o protagonista da trama, é o único humano capaz de falar. Até sua chegada, os macacos não sabiam que isso era possível. Um macaco cientista possuía a tese de que o ser humano era uma versão primitiva da qual evoluíram os macacos: o elo perdido. O fato de que Taylor é capaz de se comunicar verbalmente reforça esta tese. Porém, suas expectativas de pesquisar em campo essa realidade foram minadas pelo Dr. Zaius, ministro da ciência. Curiosamente, ele era também o ministro da fé.

Aqui é que começa o conflito: a religião dos macacos era toda pautada na superioridade deles e na bestialidade dos seres humanos. Quaisquer similaridades entre as espécies, quaisquer fatos que conectassem os humanos aos macacos, em termos evolutivos, abalariam as bases nas quais se constituía sua fé. Esta é, então, apresentada como inimiga da ciência.

Em nossa sociedade, a supremacia da razão que marcou o renascimento, o iluminismo, a revolução industrial e continua dominando nossa forma de conhecer, iniciou-se como uma resposta ou revolução à maneira de compreender a realidade, até então pautada na fé de caráter religioso, característica da idade média, período frequentemente denominado de “idade das trevas” ou obscurantismo. Independentemente da validade e justiça desses termos, eles reforçam essa oposição entre fé e ciência.

A fé é o resultado da crença em relação a um conhecimento não demonstrável. A partir do momento em que se pode constatar um fato, em que se torna possível medi-lo e estabelecer suas leis de causa e efeito, toma-se ciência dele. Esse é o momento a partir do qual a fé não poderia mais prevalecer. Porém, muitas das necessidades humanas que impelem à aceitação de crenças não demonstráveis são tão intensas que os objetos da fé se tornam verdades absoluta, apesar das contradições que a ciência expõe.

Freud, por exemplo, mostra que as religiões são criadas para que o ser humano encontre explicações que diminuam as incertezas da existência e que aproximem de sua compreensão fatos que lhe são intangíveis e que o excedem, tais a origem da vida, a morte, a imprevisibilidade e a superioridade das forças naturais e a injustiça que permeia as relações humanas. Segundo ele, muitas religiões representam seu Deus como uma figura da qual a humanidade é a imagem e a semelhança, nas quais Deus assume o papel de pai, o que poderia ser visto como uma tentativa de reproduzir a segurança que a criança encontra na figura paterna diante das ameaças da vida.

Sempre que a ciência ameaçou abalar as estruturas da fé, enquanto estas suportavam o peso da existência, viu-se a ferrenha resistência com a qual, ao longo da história, os promotores da novidade tiveram que lidar. Mudar aquilo em que se acredita resulta em mudar as forma de viver, o que nem sempre é fácil, principalmente quando as muletas de que se utiliza não são facilmente substituíveis. E que capacidade humana está à altura daquilo que podemos atribuir à divindade? É o que acontece no filme. Dr. Zaius, mesmo ciente das possibilidades de que as escrituras religiosas estejam erradas, nega à população o direito de se confrontar com outras verdades ao explodir a caverna na qual se encontravam provas capazes de contradizer sua religião. Teme a novidade que impõe mudanças.

Apesar dessa dificuldade e aparente oposição entre fé e ciência, elas são, de fato, complementares. A ciência, por mais que avance rapidamente, nunca será capaz de decifrar todas as regras do universo. Justamente por estar contida aí não há meios de que compreenda em que resulta a combinação de toda essa infinidade de elementos que o compõem. A ciência mesmo admite sua limitação, pois uma das características de um conhecimento científico é a falibilidade. Isso quer dizer que todo o conhecimento pode se tornar obsoleto diante de um novo recorte, uma nova observação.

Assim, sempre haverá espaço para a fé. Ela continuará antecedendo a ciência na busca de explicações para os mistérios que escapam à compreensão. Importa apenas que não reforce ilusões sobre aquilo que o homem já é capaz de conhecer, pois, desta forma, como ele poderá lidar com a realidade quando ela se apresentar?

Texto : Roberto Guimarães & Fernanda Guimarães

 

 

Fotos: Divulgação

 

 

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